
Às vésperas de 1º de outubro, Dia Internacional do Café, a data costuma lembrar a xícara, o barista e o comércio exterior. Mas boa parte da história recente do café brasileiro se passa bem antes disso, dentro da lavoura, no momento de tirar o grão do pé. A colheita mecanizada de café mudou a forma como o país produz a bebida, reduziu o tempo de safra em muitas regiões e alterou o perfil de quem trabalha na propriedade.
A data foi oficializada pela Organização Internacional do Café, que promoveu a primeira edição em 1º de outubro de 2015, em Milão. Para o Brasil, maior produtor e exportador mundial do grão, é também uma boa ocasião para olhar para as máquinas que sustentam essa posição.
A colhedora automotriz de café trabalha "a cavaleiro": passa por cima da linha de plantas, com o cafeeiro entrando por um túnel no meio da máquina. Dos dois lados desse túnel ficam cilindros com hastes vibratórias que penetram na copa e fazem os ramos vibrar. A vibração solta os frutos, que caem sobre lâminas recolhedoras na parte de baixo e seguem por esteiras ou elevadores até o sistema de limpeza.
Na limpeza, ventiladores separam folhas e galhos finos, e o café segue para um depósito na própria máquina ou é descarregado em carretas que acompanham a operação. Os principais ajustes que o operador faz são:
A regulagem muda conforme a maturação. No início da safra, com muito fruto verde preso ao ramo, a colhedora tende a derrubar menos; com a lavoura mais madura, a mesma regulagem pode derrubar folhas demais e machucar a planta. Por isso é comum fazer mais de uma passada ao longo da safra, com vibração e velocidade diferentes.
Nem toda lavoura comporta uma colhedora automotriz. Para esses casos existem as derriçadeiras portáteis, equipamentos motorizados, levados pelo trabalhador, com hastes ou pentes que vibram e soltam os frutos. O café cai sobre panos estendidos sob as plantas e depois é recolhido, abanado e ensacado.
Há ainda soluções intermediárias, como recolhedoras que juntam o café caído no chão e máquinas tracionadas por trator, menores que as automotrizes. Esse conjunto forma a chamada colheita semimecanizada, que combina máquina e trabalho manual e se tornou comum em propriedades médias e pequenas.
O relevo é o primeiro filtro. Colhedoras automotrizes precisam de terreno plano a suave ondulado para trabalhar com estabilidade e segurança. Foi por isso que a colheita mecanizada de café avançou primeiro em regiões como o Cerrado Mineiro e partes do Sul de Minas e de São Paulo. Em áreas de montanha, como boa parte das Matas de Minas e do Espírito Santo, a declividade limita as máquinas grandes, e a derriçadeira portátil é a ferramenta mais usada.
O segundo filtro é a lavoura em si. A colhedora exige:
Muitas lavouras antigas, plantadas para colheita manual, precisaram ser renovadas ou adaptadas antes de receber máquinas. Atualmente, quem planta café em área mecanizável já define espaçamento e cultivar pensando no equipamento que vai colher.
A mecanização reduziu fortemente a necessidade de grandes turmas de apanhadores durante a safra. Onde antes dezenas de pessoas trabalhavam por semanas em um talhão, uma colhedora com operador e equipe de apoio faz o serviço em poucos dias. Isso diminui a dependência de mão de obra temporária, que ficou mais escassa e mais cara em várias regiões.
Em compensação, cresceu a demanda por funções mais técnicas: operadores treinados, mecânicos que conheçam sistemas hidráulicos e eletrônicos, e gente capaz de planejar a ordem dos talhões conforme a maturação. A colheita semimecanizada também mudou o trabalho manual, que passou a render mais por pessoa, mas exige cuidado com vibração, ruído e postura, com uso de equipamento de proteção adequado.
Para o produtor, o saldo depende da escala e do terreno. Em áreas planas e extensas, a mecanização completa costuma ser o caminho natural. Em montanha, a combinação de derriçadeiras, boa organização das turmas e investimento em qualidade do grão segue como a estratégia mais comum.
A colheita mecanizada prejudica a qualidade do café? Não necessariamente. A qualidade depende muito mais do ponto de maturação na colheita e do cuidado na secagem e no armazenamento. Uma colhedora bem regulada, trabalhando no momento certo, entrega café com qualidade comparável à da colheita manual.
Toda lavoura plana pode ser colhida com máquina automotriz? Só se o espaçamento, o alinhamento das linhas e o porte das plantas forem compatíveis com o equipamento. Lavouras antigas muitas vezes precisam de poda ou renovação antes de receber a colhedora.
O que é colheita semimecanizada? É a combinação de máquinas menores, como derriçadeiras portáteis e recolhedoras, com trabalho manual. É a solução mais usada em áreas de montanha e em propriedades onde a colhedora automotriz não se aplica.